Tuesday, July 14, 2009

Politica cientifica a serio versus brincadeirinhas para a malta bater palminhas

O primeiro-ministro vem hoje ufanar-se do investimento feito em ciencia nos ultimos anos. Nas contas do PM, temos agora cinco cientistas por cada 1000 elementos de populacao activa. Ele acha que isto e' bom. Nao e' que seja mau, se considerarmos onde estava a casa da partida. Mas e' bom nao esquecer que ainda falta muito caminho para estarmos a falar de uma politica cientifica a serio.

Claro que a pergunta agora e': mas o que e' uma politica cientifica a serio? E' dizermos que temos muitos "cientistas"? E' dizermos que investimos 1% da "riqueza" nacional na investigacao (a proposito, a meta definida pela Uniao Europeia e pelos paises que de facto e' o triplo...)? E como e' que se distribui o dinheiro da investigacao: tudo ao molho, 2/3 para o campo de onde o ministro vem e o resto para protocolos de objectivos ligeiramente obscuros com Harvard? E' dizermos que se patrocinou nao sei quantos mil estudantes de doutoramento?

O PM pode nao saber, o ministro da ciencia pode ignorar, e as associacoes de bolseiros que sao clonadas pela Juventude Comunista podem preferir nao falar do assunto, mas nao e' pelo numero de estudantes de doutoramento que se discute politica cientifica. Por varias ordens de razao: termos muitos nao significa que tenhamos muitos bons; serem muitos nao quer dizer que sejam inovadores; formar doutores so' por formar, para a estatistica, e' estar a atirar dinheiro pela borda fora. O que interessa e' o que e' que esses cientistas fazem depois de concluirem o doutoramento. O que interessa e' perguntar: por cada 100 doutores patrocinados pelo Estado Portugues, quantos se tornam investigadores principais de sucesso em Portugal? E' que aqueles que se vao embora e NAO VOLTAM, tornando-se investigadores de sucesso no estrangeiro, nao vao contribuir para o PIB portugues, nem para a elusiva "economia do conhecimento" que agora parece ser a solucao estalar-dos-dedos para todos os problemas, como se bastasse dar uns diplomas de doutor-por-extenso para Portugal ficar um pais a serio.

O que eu gostava que o PM dissesse, ou o ministro da Ciencia, era: "ja' mostramos que temos capacidade de formar muitos; agora o importante e' seguir as carreiras deles, e garantir que os que nos proximos tres-quatro anos demonstrarem potencial para ser investigadores inovadores e de sucesso vao desenvolver a sua actividade cientifica em Portugal. E para isso, vamos dar-lhes TODAS as condicoes para que sejam competitivos a nivel internacional - e ao darmos-lhes essas condicoes, vamos exigir que o sejam de facto.". Isto era politica cientifica a serio, e nao lancamento de numeros para o ar na tentativa de viver 'a sombra da estatistica.

E depois, se queremos de facto uma economia baseada no conhecimento, entao nao se pode esquecer que a capacidade de inovar e' fundamental. Por isso, qualquer mencao 'a economia do conhecimento sem mencionar o despedimento/remocao/afastamento/chamam-lhe-o-que-quiserem imediato de TODOS os dinossauros/dinossauras que vegetam nos corpos docentes das faculdades portuguesas sem terem produzido uma unica publicacao durante as suas carreiras, nao pode ser levada a serio. Na mesma linha, falar de investigacao e de inovacao sem recordar que o sistema de ensino portugues, da escola primaria 'a universidade, estimula a vadiagem e a cabulagem e o marranco e reprime violentamente a criatividade, e sem se demonstrar uma vontade inabalavel de lutar contra tudo e contra todos para acabar com esse regabofe nao e' serio.

E' muito bonito ter o ministro da ciencia a dizer que os investigadores devem criar as suas proprias oportunidades para regressar a Portugal. (E nao estou a ignorar o muito trabalho produzido por este ministro!). Mas dizer "ah e tal, nao vem para ca' porque nao querem" quando nao se mexeu uma palha para criar infraestruturas que permitam que as pessoas voltem, se instalem e sejam competitivas, e' uma piada de muito mau gosto, demasiado infeliz para sair de uma pessoa com o nivel intelectual de Mariano Gago.

1 comment:

  1. nuno, tinha de comentar este post porque, sem querer por em causa a capacidade cientifica do mariano gago, acho que o rapaz anda um pouco enganado.

    o problema maior do nao desenvolvimento cientifico em portugal tem a ver, acima de tudo, com a falta de infraestruturas que suportem os investigadores durante uma carreira cientifica, com avaliacoes anuais, e fundamentadas num sistema de financiamento da investigacao cientifica que premeie quem realmente faz investigacao e nao se limite a uns meros 20 mil euros a cada 5 anos.

    um dos problemas fundamentais tem a ver com prioridades. e como as prioridades estao todas trocadas, entao mantem-se o status quo. e esse status quo transmite-se a um outro post teu, que e' o da avaliacao (ou falta dela) de professores. tudo porque em portugal o professor (em ciencia) e' visto nao como um investigador mas como um educador. e a apetencia de 99.9% deles para educadores e' o que se sabe...

    no fim de contas, gostamos muito de gastar $$ em estadios de futebol e comboios ate' paris, mas queremos que os cientistas, essa gente anti-social que nada traz de positivo ao desenvolvimento do pais, fique em portugal ou volte a para portugal (no nosso caso que decidimos emigrar) a troco de ordenados miseraveis e bolsas de investigacao que nao chegam para pagar 5 reaccoes de pcr...

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